MARCAS

Eu sempre fui muito ligado a esportes. Futebol, boxe, surf, skate, vôlei, capoeira… tudo o que eu tinha o mínimo acesso eu tentava praticar, mas dentro de todos esses, o Surf foi o último a entrar na minha vida. Dropei a minha primeira onda aos 12 anos e, infelizmente ou felizmente, tenho as marcas desse dia até hoje. Era uma onda irada (aos olhos de um surfista de primeira viagem), mas a execução não foi das melhores (pois eu era um surfista de primeira viagem). Lembro que foi um momento único, eu tinha sentido o gostinho de como era pegar uma onda, estava radiante, mas no meio dela eu fui jogado aos corais. A emoção era tamanha que eu não me lembro de nada desse momento, somente da sensação que foi “pegar” a onda. Depois de rolar entre os corais, voltei para a prancha e continuei a “surfar” normalmente por mais 1 hora, achando que nada tinha acontecido, completamente anestesiado pela emoção de estar no mar sobre uma prancha, rodeado de surfistas e com altas ondas rolando – era um sonho de infância se realizando. Quando saí do mar, sentei na areia com a prancha do lado (bem surfista de filme cansado depois de uma série, tá ligado?!) e fiquei olhando a galera surfando enquanto o meu parceiro e professor de surf ainda estava no mar. Quando ele saiu do mar e veio na minha direção, espantado com o que via, ele me mostrou o resultado daquela primeira onda.

Ele apontou para minha perna e me perguntou o que tinha acontecido, eu, sem entender do que ele estava falando, olhei para ela tentando achar o motivo para tanto espanto. E eu encontrei: a minha perna e a areia onde eu estava sentado estavam banhadas de sangue. O que aconteceu foi que naquele momento em que fui jogado aos corais o meu joelho foi aberto e eu não tinha sentido, nem na hora que aconteceu, muito menos enquanto estava sentado na areia. Resultado: fui levado ao posto de saúde e tomei os meus primeiros 4 pontos. Estava triste? Jamais. Contar para os meus amigos que aquela cicatriz foi fruto de uma tarde de surf era a coisa mais incrível que poderia ter acontecido, eu enxerguei muito além daquela onda ou ferimento. Hoje eu posso dizer que já fui um surfista e posso provar com as marcas no meu corpo (que estão apenas no joelho, mas falar do corpo passa muito mais credibilidade).

Essa experiência poderia ter frustrado completamente o meu sonho com o surf, porém a forma com que eu a levei me fez querer aquilo novamente. Uma experiência que poderia me trazer medo, me trouxe coragem e motivação. Hoje, lembrando dessa e de muitas outras histórias que vivi no surf, eu vejo o quanto que Deus usa essa parte da minha vida para me ensinar e provar o seu amor e cuidado por mim. Textos, ideias e sonhos surgiram a partir daquele dia, da minha primeira onda – em tudo isso eu enxergo Deus.

Hoje eu vivo numa realidade completamente diferente e distante do surf. Antes eu morava a 10 minutos de caminhada da praia, hoje eu moro a horas de carro da praia mais próxima. Eu moro num lugar cercado de natureza, belas flores, animais, fazendas, porém Deus ainda fala comigo através das ondas. E é nisso que mora o segredo.

Não digo que estou vivendo uma nova história, mas sim um novo capítulo de uma única história, pois a minha vida foi escrita por um Autor criativo e sonhador, o qual depositou suas características em mim, mero Protagonista. Hoje eu leio os capítulos anteriores e aprendo com eles, e isso me traz a certeza de que esse novo capítulo irá me ensinar quando eu estiver vivendo os próximos, pois a mesma sensação que eu tive ao surfar aquela primeira onda é o que eu sinto hoje. A emoção de estar num mar de sonhos, sobre um propósito, rodeado de sonhadores e com muitas ondas rolando, ondas diferentes daquelas que eu surfava. Essa nova experiência tem deixado marcas em mim, marcas que às vezes eu nem sinto, mas que estão sendo depositadas no meu corpo (agora não só no joelho) e que eu terei orgulho de contar para as pessoas que são fruto de um ano mergulhado naquilo que o Autor da vida sonhou e escreveu para mim.

Tudo isso me mostra que todas as coisas foram desenhadas pela arte celestial, por isso, encontro Deus em tudo que vejo.

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